
Bio-Artificial
Não se esquece o cheiro de uma criança modificada morta. Ali, com o peito dela aberto e os implantes brilhando sob a luz cirúrgica, algo dentro de mim desperta. Não é memória. É instinto primitivo de sobrevivência. Meu nome é Zéric-7, e até este momento eu acreditava ser apenas mais um técnico, um aprendiz de sistemas biotecnológicos. Mas enquanto observo aqueles circuitos ainda pulsando no corpo pequeno, compreendo a verdade: sou como ela. Produto da mesma tecnologia. O mesmo experimento. É então que ouço o primeiro bipe. Distante, mas inconfundível: o som de um rastreador sincronizando com DNA sintético. Os caçadores biotecnológicos já farejam meu código genético. Sinto suas presenças se aproximando pelos corredores do laboratório, seus scanners vasculhando cada sinal vital. Tudo o que eu pensava ser. Nome. Identidade. Propósito. Se dissolve. Não há mais chão seguro, apenas a certeza de que preciso correr. Eles me querem de volta. Como peça defeituosa. Como prova de conceito. Como produto que escapou da linha de montagem. Mas talvez seja tarde demais para devoluções. Porque a verdade é um vírus que se espalha. E eu acabo de infectar a mim mesmo com liberdade.